Durante alguns dias convivi com os Bertram, com os Crawford, com os Grant e não parei de ler enquanto não soube do destino de Fanny Price, a heroína deste incrível romance de Austen. Incrível porque reconheço nesta obra tão recuada no tempo aquela qualidade de suspense dramático, típica das novelas, que tanto faz suspirar as pessoas que as seguem. O mundo pessoal de Jane Austen encontramo-lo ficionalmente transposto nesta como em outras obras suas. A família é o centro de tudo, é fonte das alegrias dos indivíduos, e como tal torna-se necessário preservá-la e defendê-la. Jane nunca casou, mas os seus pais, irmãos e sobrinhos eram tudo para ela. A felicidade da escritora era inteiramente doméstica, apesar da dependência que o celibato impunha. Mas o facto de não se ter emancipado através do casamento permitiu-lhe ver de fora os mecanismos que regem as alianças matrimonais e o seu efeito na felicidade dos indivíduos. Fanny Price, como Jane, não tem como horizonte o casamento, pois foi criada como filha adotiva dos seus tios ricos, que naturalmente privilegiavam os filhos. Fanny é espectadora dos acontecimentos que assolam a família que a criou e de espectadora vai passar a membro de pleno direito da sua família. A formação moral do indivíduo vai sobrepôr-se ao sangue na consideração social que ele receberá. Esta é apenas uma das linhas de interpretação do romance, mais complexo do que parece à primeira leitura. Um grande clássico. VC 08.2017 nas areias das Caxinas 4,5/5
