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Tim (Colleen McCullough, 1974

Desta vez li o livro (Tim, 1974) sem conhecer o filme, sem mesmo saber que o primeiro livro de Colleen Mccullough, além de ser um enorme sucesso, inspirou pelo menos dois filmes, o primeiro dos quais com o jovem Mel Gibson no papel do protagonista. O romance narra a história de amor entre uma solteirona rica, quarentona, e um jovem excecionalmente belo mas com um atraso mental que o afasta de uma vida normal. Protegido pelos pais e pela irmã, gozado pelos colegas de trabalho, lamentado pela sociedade, Tim encontra em Mary Horton alguém que pouco a pouco se torna a sua melhor amiga e a sua companheira para a vida. Leitura e história interessantes, embora tudo se encaixe de forma demasiado perfeita. As personagens são pouco complexas e as importunas são simplesmente afastadas para tornar o romance entre Tim e Mary idílico. Foi o romance mais próximo da chamada literatura cor de rosa que eu já li. Vou querer ver os filmes, pois a história e os atores (Pier Laurie & Mel Gibson, Candice Bergen & Tom McCarthy) prometem. Viagem Paris-Salvador 2017: 3,5/5

Impunidade (H. G. Cancela, 2014)

Impunidade (H. G. Cancela, 2014)
Difícil apresentar ou resumir a história deste romance, cujos meandros vão sendo revelados pouco a pouco. Talvez isso não seja importante. Logo de entrada (e vai ser assim todo o caminho) encontramo-nos perante seres magoados, náufragos de uma tragédia familiar de que nada sabemos mas a seu tempo saberemos. Duas crianças, o narrador, suposto pai das crianças, a mãe destas, uma outra mulher e o seu filho adolescente. Pouco falam, pouco fazem e pouco sabemos das suas motivações; e as crianças não são crianças, tolhidas já pelos crimes dos adultos. O narrador descreve imperturbável os escassos movimentos dos personagens, mas tudo é engolido pelo silêncio e pelo calor do interior de Espanha no verão. Mas há as breves notas sobre o corpo das mulheres, revelando um narrador perturbado, por momentos. Impunidade foi finalista do prémio da APE, o júri acertou ao considerá-lo merecedor de tal galardão. Praia das Caxinas 08.2017 3,5/5 BMPV

Oranges Are Not the Only Fruit (Jeanette Winterson, 1985)

Oranges Are Not the Only Fruit (Jeanette Winterson, 1985)
As Laranjas não são o Único Fruto (Bico de Pena, 2006) é praticamente um clássico moderno da literatura britânica. Este romance de 1985 tornou a sua autora uma celebridade no mundo das letras e na comunidade LGBT. Oranges... narra o coming-of-age de uma rapariga lésbica no seio de uma comunidade evangélica de província, na qual a mãe e ela própria têm um trabalho ativo de divulgação da mensagem religiosa. Ainda menina, Jeanette (nome da protagonista e da autora) teve uma integração escolar tardia e difícil, em virtude dos valores religiosos da sua mãe. Mais tarde, adolescente, a descoberta do amor físico com mulheres trouxe-lhe o desprezo da mãe e dos fieis da sua igreja e ela é obrigada a abandonar o lar. O livro é relativamente original na abordagem do tema da formação do indivíduo, que encontramos em todas as literaturas modernas. Mas a opção, cara aos escritores ambiciosos nos anos 80, de interpolar na narrativa principal breves fábulas com heróis do ciclo arturiano (entre outros), faz o interesse do romance baixar consideravelmente. Nas areias das Caxinas 3/5

Persuasion (Jane Austen, 1818)

Jane Austen foi uma pioneira das telenovelas. Persuasão narra o amor de Anne Elliot, da pequena nobreza rural, pelo capitão Frederick, da Marinha e de fortuna recente adquirida na atividade marítima. Mas a maior parte do romance, o último de Austen, trata das manobras familiares para casar os filhos evitando a descida social. O dinheiro e o estatuto social são a grande obsessão das várias famílias que se cruzam neste romance iluminado pelas duas almas gémeas que são Anne e Frederick. Primeira obra de Austen que leio. Praia das Caxinas 4/5

Summer (Edith Wharton, 1917)


Este romance faz este ano precisamente um século. A sociedade descrita no romance mudou muito, mas não mudou o prazer que dá a sua leitura. Gostei mais, porém, dos outros dois textos de Wharton lidos antes deste: Souls Belated e Ethan Frome. A protagonista de Verão (ou Sussurros de Verão, na versão que li) é Charity Royall, filha adotiva do advogado Royall, grande eminência da pequena localidade onde vivem. Charity é muito jovem e desperta para o amor e a sensualidade, mas as suas origens mais do que modestas (ela vem de Montanha, uma aldeia isolada, povoada por seres discriminados como hoje são os ciganos) determinam o seu destino tenebroso. Ela é cortejada por um jovem com cultura muito superior à sua e da grande cidade, mas também é assediada pelo próprio padrasto, que tudo faz para casar com ela. Um notável romance que fala de questões ousadas. VC 2017 4/5

Ethan Frome (Edith Wharton, 1911)


Tão cedo não esquecerei esta história e estas personagens, Ethan, Zeena e Mattie, condenados a viver na mais absoluta pobreza à espera... do fim. Ethan e Zeena são casados, e Mattie, sendo parenta de Zeena, é criada do casal. O único calor da casa isolada onde habitam vem do amor entre Ethan e Mattie, amor não confessado nem consumado. A atmosfera da novela é sombria e pesada como nas tragédias, mas nada acontece como nas tragédias. Os três são tomados pela inércia, não conseguindo reagir ao que o destino lhes serviu. Ethan Frome é uma obra-prima. VC 08.2017: 5/5

H. G. Wells (Laura El Makki)

Peguei nesta biografia por causa de Rebecca West, cuja biografia me tinha fascinado há meses. Wells foi talvez o homem mais importante na vida amorosa de Rebecca West, tendo tido um filho dele. Mas Rebecca foi apenas uma das muitas amantes de Wells, que se manteve casado com Jane até à morte desta. Wells tornou-se desde cedo (aos 30 anos) um homem cèlebre em todo o mundo e apesar de ter escrito muitos romances e ensaios ao longo da vida, a sua celebridade deveu-se ao impacto que tiveram as suas obras de ficção científica publicadas entre 1895 e 1898: The Time Machine, The Island of Doctor Moreau, The Invisible Man e The War of the Worlds. Quem não as conhece mesmo sem as ter lido? Parece-me que o resto da obra está esquecida e o próprio Wells apercebeu-se de que, mesmo mantendo a celebridade (visitava e entrevistava os líderes políticos dos EUA e da Rússia, por exemplo), cada vez menos gente lia os seus livros. Ele pôde mesmo testemunhar o sucesso daquelas obras iniciais no cinema e até na rádio, como a famosa dramatização radiofónica feita por Orson Welles (o escritor não gostou mesmo nada da brincadeira do realizador até se aperceber de que o seu nome voltava a ser popular devido ao grande impacto do programa de rádio). Paris 2017 3/5

Souls Belated (Edith Wharton,1899)

Souls Belated é um conto sobre um casal de amantes apanhados pelos preconceitos que regiam a sociedade aristocrática da viragem do século XIX/XX. Lydia acaba de receber a notícia (esperada) do seu divórcio, mas esse facto faz nascer uma crise na relação com o seu amante Gannett, que pretende no entanto desposá-la. Lydia desejava a liberdade conjugal mas dá-se conta agora de que o passado de mulher casada torna o futuro angustiante. Este conto representa bem o tom e a temática da obra de Wharton, assim como a qualidade da sua escrita. VC 2017 4/5

Aiding and Abetting (Muriel Spark, 2000)

Dois homens apresentam-se no consultório de uma psiquiatra confessando serem um Lorde que anda fugido da polícia por ter morto há décadas a ama dos seus filhos. Qual dos dois será esse Lorde? Mas a psiquiatra também tem uma vida passada, escondida pela sua nova identidade, em que cometeu um crime na sua Alemanha natal. Chantagem, ameaça de pobreza e desespero vão empurrar este trio para uma dança de quem desmascara primeiro o outro. Foi de longe o livro menos interessante que li de Muriel Spark: onde está o génio da escritora do fundamental The prime of miss Jean Brodie (1961)? Li a versão francesa Complices et comparses (Gallimard, 2002). Paris/Londres 2017 2/5

The Man Who Died (D. H. Lawrence, 1930)

The Man Who Died é o último romance (ou novela) de D.H. Lawrence, mas é o primeiro livro que leio dele. Não estava preparado para tamanha beleza de texto e de imaginacão romanesca. O livro entrelaça a história de um galo com a história de Jesus ressuscitado, no dia seguinte à sua morte. A descrição dos animais e da natureza é das melhores que já li e a observação da vida que irrompe em cada ser na sua juventude também dá origem a uma narrativa dos homens igualmente sugestiva. Um conto filosófico, como lhe chama Drieu la Rochelle no prefácio àversao francesa que li e que também é assinada pelo escritor francês. O texto francês (de 1933) é de uma qualidade sem igual, certamente por ter sido vertido por um grande escritor. Foi inicialmente publicado na célebre coleção L`'Imaginaire da Gallimard. Leitura durante a viagem Paris-Londres 07.2017 4,5/5

Rubens

Com este precioso livro da Taschen (feito para as massas) fiquei a perceber melhor o que eram os grandes ateliers de onde saíam obras em catadupa assinada por um mestre da moda. E poucos terão havido como Rubens, cujos ateliers formaram grandes pintores e promoveram o trabalho especializado: um pintava flores, outro as formas humanas, outro os animais mortos... Nunca prestei atenção a Rubens, mas agora alguns dos seus quadros fascinam-me. Não se conhecendo o contexto em que foram produzidos, nem imaginamos a ousadia (estética, política) que certos quadros encerram, mas que na superfície (da nossa ignorância) nos parecem académicos e sem vida. Vila do Conde 2017: 5/5

François Mauriac (Violaine Massenet, 2000)

François Mauriac (2000)
Ensaio de Violaine Massenet
Mauriac é hoje um escritor pouco lido, mas dos anos 1910 aos anos 1960 foi um intelectual e um romancista incontornável na vida cultural francesa. Foi um intelectual católico muito próximo dos intelectuais de esquerda, inclusive comunistas, e esse é um traço de personalidade e de formação que muito admiro. Nos momentos cruciais em que se decidia o destino da Europa (Guerra civil espanhola, Frente Popular no governo em França, Ocupação da França pelos nazis, o imediato pós-guerra, a descolonização em Africa), teve sempre uma posição moderada, e conseguiu ser atacado tanto pela extrema esquerda como pela extrema direita. Mauriac foi um grande romancista e foi essa a faceta que mais resistiu mesmo depois da sua morte. Privilegiava nos seus livros a classe social a que pertencia, a burguesia terratenente, em histórias que se centravam em temas como a família, a consciência e a culpa, ou o amor e a paixão. Mas aquilo que mais aprecio em Mauriac é a sua língua, o seu estilo, que não está presente apenas nos romances mas em toda a sua extensa produção intelectual, como se pode ver pelos inúmeros exemplos citados nesta biografia escrita por Violaine Massenet. A autora escreveu uma excelente biografia, que capta muito bem o sentido da ação e do pensamento de Mauriac. Mas falta informação sobre a repercussão da obra de Mauriac fora do seu país, ou terá sido Mauriac um escritor pouco exportável? E que razões justificam isso, a ser verdade? Uma linha de investigação interessante mas ausente da obra de Massenet. VC 2017 4/5

BIBLIOTECA
 Préséances (1921) Le baiser au lépreux (1922) Génitrix (1923) Thérèse Desqueyroux  (1927) Le noeud de vipères (1932) Le mystère Frontenac (1933) Le désert de l'amour (1935) La Fin de la Nuit (1935) Les chemins de la mer (1939) Le Sagouin (1951) L’Agneau (1954) Un Adolescent d'autrefois (1969) François Mauriac (Flammarion Grandes Biographies, 2000)

Maurice (E. M. Forster, 1914 e 1971)

Kkkkk

Maurice é um romance sobre a relação amorosa entre dois homens, primeiro Maurice e Clive e depois Maurice e Alec, escrito em 1913-1914 num país em que a vivência homossexual era crime punido pela Lei. Compreensivelmente, o romance foi publicado pela primeira vez em 1971, logo após a morte do seu autor. E. M. Forster escreveu este romance transgressor como se não o fosse, como se estivesse a escrever sobre a relação entre um homem e uma mulher, cujo amor se tornava impossível devido aos habituais constrangimentos (diferença de classe e de fortuna). Um amor impossível como tantos outros que inundam a literatura universal. Mas o amor homossexual é apresentado neste romance sob duas perspetivas: ou é negado, e os amantes se convertem à norma heterossexual (Clive) ou é assumido, e os amantes desafiam a norma com todas as consequências daí decorrentes (Alec). Se Maurice é um romance com uma vertente teórica, cabe a nós decifrá-la através da leitura desta bela história narrada com recorte clássico. Praia das Caxinas 08.2017 BMPV 4,5/5

The Murdee Room (P. D. James, 2004)

 
Neste romance, P. D. James precisa de cerca de 150 páginas para apresentar as personagens e o contexto em que irá decorrer a investigação dirigida por Adam Dalgliesh sobre duas mortes no pequeno museu privado de Dupayne, em Hampstead, Londres. Para alguns leitores, essa apresentação poderá ser excessivamente longa e penosa, para outros (como eu), essa estratégia, aliada ao estilo de James, dá uma espessura sociológica e psicológica à história e às personagens. Como em outras obras da escritora, as personagens são solitárias e desenvolvem hábitos, quase manias, que muito revelam das sociedades urbanas de hoje. A felicidade conjugal não escolheu nenhuma das muitas personagens deste romance. A solidão destas torna-as egoístas e particularmente dependentes da sua ambição pessoal que passa pelo dinheiro, pelo poder, pelo sexo e pela realização profissional. É o que se chama um romance noir em pleno, que não se esgota nos crimes e em quem os cometeu. Alguns personagens são responsáveis pelos crimes que não cometeram, outros os desejaram ou tirariam proveito com eles. Os romances de P. D. James estimulam sempre pertinentes reflexões sobre o poder da morte entre os vivos. Um dos crimes foi até cometido na sala dos homicídios de um museu. E os crimes ecoam crimes antepassados, cuja memória é devidamente preservada naquela sala. Salvador 11.2017:  4/5

Original Sin (P. D. James, 1994)

Mais umas férias, mais um policial da rainha P.D. James. Tenho reservado ultimamente para os dias de praia algumas das grandes obras da escritora britânica. Original Sin é uma obra extensa (perto de 500 páginas) sobre uma série de crimes que acontecem numa prestigiada editora independente de Londres. Um dos crimes vitima uma escritora de policiais, que acabara de ser despedida da editora depois de décadas de colaboração. P.D. James deve ter sentido um prazer especial em dar vida a esta personagem, uma das mais cativantes do romance. Não gostei do desenlace, que articula vingança e anti-semitismo de forma pouco convincente. Mas como em outros policiais de P.D. James, o mais interessante passa-se nos interstícios das revelações que conduzem à descoberta do assassino. Ficamos a conhecer uma galeria de personagens complexas, com passados, ainda que sumariamente apresentados, de grande densidade (personagens órfãos, personagens com uma genealogia que inclui assassinatos, mortes nos campos de concentração de judeus, personagens que soçobram perante a tradição familiar, personagens com preocupações ordinárias...). Abril de 2017, Salvador da Bahia, areias do Porto da Barra 3,5/5

The Glass Key (Dashiell Hammett, 1931)

Como ler clássicos da literatura pulp policial, dos anos 20/30, depois de passar a vida a ver o cinema noir, que tantas obras-primas nos deu? Na origem desse cinema, descoberto pela cinefilia europeia por altura da segunda guerra, está a grande literatura policial e detetivesca americana publicada na imprensa (pulp e não só) e em livros, nos anos 20 e 30. Dashiell Hammett, que leio pela primeira vez, é um dos seus grandes autores. The Glass Key é perfeito. Com um estilo enxuto, narra uma história que não fica na memória pela originalidade (por causa das centenas de filmes noir que passaram pelos meus olhos) mas que põe a nu a corrupção da sociedade americana, as ligações perigosas e obscuras entre o poder político e o poder policial, a ambição desmesurada dos seus atores. As personagens, a começar pelo detetive Ned Beaumont, são complexas q.b. para dar grande credibilidade a toda a ação. Excelente. Praia das Caxinas  2017:  4,5/5

Raymond Chandler le gentleman de Californie (Frank MacShane, 1982)

Raymond Chandler é um dos mestres do romance policial. Foi ele quem aboliu de forma mais consistente a fronteira entre a literatura de género policial e a grande literatura, que ultrapassa a questão de género. Chandler era um homem com perfeita consciência do seu valor e da revolução que pretendia fazer no campo da literatura. Nasceu em Chicago mas passou a adolescência em Inglaterra (os pais tinham origem irlandesa), onde frequentou o prestigiado Dulwich College, que lhe assegurou uma sólida formação em estudos clássicos. Era um excelente aluno e poderia ter ido para uma das grandes universidades inglesas, mas acabou por regressar aos Estados Unidos, onde viveu o resto da sua vida. O título francês desta biografia americana remete para a forma como na verdade ele se via: um gentleman de educação britânica a viver numa terra pessoas sem classe. Nunca gostou de Nova Iorque e tão pouco gostava de Los Angeles, a cidade que ele ajudou a imortalizar. Na verdade, amou muito a sua mulher, companheira de toda a vida (e muitos anos mais velha do que ele) mas tinha um relacionamento difícil com a maioria das pessoas. Estavam sempre a mudar de casa (várias vezes por ano) por incompatibilidade com os vizinhos (crianças, barulho, falta de classe, etc.). A sua passagem por Hollywood é intempestiva. Lá ganhou muito dinheiro, teve secretárias como amantes, escreveu de forma lúcida e frontal contra Hollywood e detestou quase tudo o que foi feito no cinema em torno da sua obra. Escreveu contos e alguns (poucos) romances que o tornaram célebre entre os próprios pares, não apenas escritores de policiais, mas também os escritores mais prestigiados da época. Quando estes últimos o elogiavam, Chandler sentia que o seu trabalho tinha enfim sido devidamente reconhecido. A correspondência de Chandler parece ser enorme, e atravês das cartas expressava-se de forma abundante e pertinente sobre o seu trabalho e a sua vida, tendo escrito para pessoas que provavelmente dificilmente teriam grandes conversas na sua presença. O autor da biografia, Frank MacShane, fez bem em citar abundantemente Chandler pois desse modo ficamos a conhecer sem interpretações de terceiros o que pensava Chandler. Foi uma excelente leitura. Paris 2017 4,5/5

Mansfield Park (Jane Austen, 1814)

Durante alguns dias convivi com os Bertram, com os Crawford, com os Grant e não parei de ler enquanto não soube do destino de Fanny Price, a heroína deste incrível romance de Austen. Incrível porque reconheço nesta obra tão recuada no tempo aquela qualidade de suspense dramático, típica das novelas, que tanto faz suspirar as pessoas que as seguem. O mundo pessoal de Jane Austen encontramo-lo ficionalmente transposto nesta como em outras obras suas. A família é o centro de tudo, é fonte das alegrias dos indivíduos, e como tal torna-se necessário preservá-la e defendê-la. Jane nunca casou, mas os seus pais, irmãos e sobrinhos eram tudo para ela. A felicidade da escritora era inteiramente doméstica, apesar da dependência que o celibato impunha. Mas o facto de não se ter emancipado através do casamento permitiu-lhe ver de fora os mecanismos que regem as alianças matrimonais e o seu efeito na felicidade dos indivíduos. Fanny Price, como Jane, não tem como horizonte o casamento, pois foi criada como filha adotiva dos seus tios ricos, que naturalmente privilegiavam os filhos. Fanny é espectadora dos acontecimentos que assolam a família que a criou e de espectadora vai passar a membro de pleno direito da sua família. A formação moral do indivíduo vai sobrepôr-se ao sangue na consideração social que ele receberá. Esta é apenas uma das linhas de interpretação do romance, mais complexo do que parece à primeira leitura. Um grande clássico. VC 08.2017 nas areias das Caxinas 4,5/5

Vita - The Life of Vita Sackville-West (1983)

Vita - The Life of Vita Sackville-West (1983)
Victoria Glendinning
BIBLIOTECA
Vita Sackville-West notabilizou-se como romancista, poeta e autora de livros sobre jardinagem escritos a partir da sua paixão pelos jardins (os da sua casa de Sissinghurst estão abertos ao público e são muito visitados). No entanto, a biografia Vita: The Life of Vita Sackville-West (Weidenfeld, 1983), de Victoria Glendinning, ocupa-se sobretudo da sua vida íntima e menos da sua obra literária. Vita foi casada com Harold Nicolson, também escritor além de diplomata e político, e ambos viveram um amor intenso até aos últmos dias de vida de Vita (1962). Mas tanto um como outro eram homossexuais e Vita, em particular, acumulou antes e durante o casamento, os casos com mulheres, entre as quais o mais famoso terá sido Virginia Woolf. A relação de Vita com o marido e com as muitas amantes está bem comprovada através dos diários e das cartas que eles trocavam entre si. Poucos casamentos passaram com tantos pormenores para o papel como o de Vita e Harold. Na verdade, eu li esta biografia como se de um romance se tratasse, ou pelo menos com a devocão que costumanos ter pelos melhores romances. Depois da leitura, dois desejos me tomaram: ler a obra romanesca de Vita e visitar a casa da sua infância, Knole, uma das mais famosas propriedades privadas inglesas, pertencente durante séculos ao Lorde Sackville, e Sissinghurst, onde viveu a maior parte da sua vida. Li a versão francesa do livro de Victoria Glendinning, Vita, La Vie de Vita Sackville-West (Albin Michel, 1987). Paris 06.2017 4/5

BIBLIOTECA:
All Passion Spent (1931pt)
Paola (1932fr)
The Easter Party (1953fr)
No Signposts in the Sea (1961fr)
Vita:The Life of Vita Sackville-West (V.Glendinning, 1983fr) 

Edith Wharton (Diane de Margerie, 2000)

 
Edith Wharton (Flammarion, 2000)
Comprei este livro pensando ser uma biografia de Edith Wharton. Mas não é. Diane de Margerie, que traduziu para francês várias obras de Wharton e prefaciou outras tantas, tornou-se íntima do universo romanesco da escritora americana a ponto de tentar um retrato da escritora que se inspira tanto nas suas obras como na sua vida. Wharton é um daqueles escritores que se expôs, nas dimensões mais íntimas do seu ser, nas personagens, nas tramas e nas situações dos seus romances, novelas e contos. De forma oblíqua, obviamente. O efeito conseguido por Margerie é o mais positivo: desbrava a complexidade da obra de Wharton ao mesmo tempo que aguça a curiosidade do potencial leitor para os livros da autora. Edith teve uma relação complicada, distante, com a mãe, e o pai primou pela ausência. Em adulta apenas teve grandes amizades masculinas, nomeadamente com homossexuais (latentes ou não), como Henry James, Walter Berry e Morton Fullerton (com este último teve a sua única paixão consumada). Se estas amizades masculinas aparecem nas suas ficções, é a mulher que ocupa o seu centro. As mulheres da sua sociedade não têm grande liberdade de ação, mesmo aquelas da velha aristocracia de Nova Iorque, a que Wharton tanto se dedicou. Wharton tornou-se numa escritora reconhecida e, ao contrário do seu grande amigo e mentor Henry James, numa escritora muito popular, com vários best-sellers. Wharton admirava as suas personagens-mulheres que lutavam contra as armadilhas e preconceitos sociais e desprezava aquelas que contribuíam para a reprodução desses constrangimentos. Tornar-se escritora, conquistar a room of one's own, como defendia Virgina Woolf, foi sem dúvida o grande feito desta grande escritora, que vou querer visitar muitas vezes. VC 2017 4/5

Will Eisner (Michael Schumacher, 2010)

Will Eisner (2010) Autor: Michael Schumacher Bloomsbury 2010 Hardcover BIBLIOTECA F