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Fado, Samba e Beijos com Língua (Hugo Gonçalves, 2011)

Um conjunto de textos curtos, saborosos, sobre a vida de hoje. Cor local e sinais dos tempos é o que não falta nestes textos, será fácil no futuro datá-los a partir da sua leitura. Alguns textos não ultrapassam o registo ficcional desses sinais do tempo, outros são mais ambiciosos. Resta-me agora conhecer os romances deste jovem escritor. Uma leitura de verão por excelência. Praia das Caxinas 2015: 3/5

Un Soir au Club (Christian Gailly, 2001)


Un soir au club é um dos mais famosos romances do autor "Minuit" Christian Gailly. O protagonista é um pianista de jazz que há muito abandonou essa atividade. Um dia, de passagem por uma pequena cidade do litoral francês, retoma a sua arte e conhece uma mulher por quem se apaixona. Belo livro. Leitura 2015

L’herbe des nuits (Patrick Modiano, 2012)

L'Herbe des nuits (2012)
Jean, o narrador, apoiando-se num caderno onde registou muitas informações sobre um período longínquo da sua vida, tenta reconstituir com mais precisão esse passado. Como os cafés e os prédios que desapareceram para sempre com a constante renovação urbana, também o nome e o rosto daqueles que Jean conheceu um dia mal sobreviveram na sua memória. A vida é sonho, parece sussurrar-nos este romance, mas certos pormenores sobreviventes (uma rua, um café, o hall de um hotel, um nome próprio de que não se esquece embora falso) são sinais enviados do passado para o narrador voltar a visitá-lo em busca de respostas que nunca teve. Este livro de Modiano não é dos mais felizes do autor no que respeita a trama, mas como sempre a música da narração é encantatória. Paris/Póvoa 2015:  4/5

BIBLIOTECA [20] 
La place de etoile (1968 ed. Folio) La Ronde de Nuit (1969) Livret de Famille (1977) Rue des Boutiques Obscures (1978) De si braves garcons (1982) Poupée Blonde (1983) Quartier Perdu (1984) Dimanches d' Aout (1986) Remise de peine (1988) Voyage de Noces (1990) Memory Lane, dessins de Pierre Le-Tan (1991) Fleurs de ruine(1991) Un Cirque qui Passe (1992) Chien de Printemps (1993) Dora Bruder (1997) La Petite Bijou (2001) Un Pedigree (2005)  Dans le café de la jeunesse perdue (2007) L'Horizon (2010) L’herbe des nuits (2012, folio) Pour que tu ne te perdes pas dans le quartier (2014orig)  

Fome (Knut Hamsun, 1890)

Ed. 2025?
A leitura de Victoria do mesmo autor não me preparou para a obra-prima absoluta que é Fome (1890). Victoria é um livrinho, Fome é um livrão. E pensar que o livro é contemporâneo do nosso Eça... As obras de Eça (e de quase todos os outros) apresentam as marcas do seu tempo nas temáticas, na linguagem, na construção romanesca, Fome de Hamsun não parece pertencer a nenhuma época em particular, como aliás o seu protagonista sem nome, que passa pela vida como um fantasma, um intocável. O mundo não quer nada com ele e, não fosse a Fome provocá-lo e lembrar-lhe que ele é um ser vivo, ele passaria invisível pela Cidade. Mais universal e intemporal do que este livro não há, não conheço. Sult (Fome), ed. Cavalo de Ferro, 2008, traduzido por Liliete Martins,. Vila do Conde 2015:  5/5

Victoria (Knut Hamsun, 1898)

Victoria (1898) não é um bom livro para se entrar na obra de Knut Hamsun. Não corresponde ao que se espera de um autor que ganhou o Nobel. Narra a história de amor entre a filha de um castelão e o filho do moleiro, caseiro desse castelão. Uma união impossível devido à distância social que afasta os dois jovens. O desenlace é trágico, mas a infelicidade marcou desde o início esse amor. O melhor não é a história nem as personagens, que achei quase desinteressantes, mas a limpidez da narrativa, que atravessou o século e chegou até nós sem uma ruga. E também a descrição, sempre contida, da natureza, que parece esposar os sentimentos prevalences do romance. Leitura 2015
Victoria, ed. Cavalo de Ferro 2010, trad. Carlos Aboim de Brito - Nota: 3/5

La Fontaine (Dandrey, 1995)

La Fontaine ou les métamorphoses d'Orphée (1995) de Patrick Dandrey é uma excelente introdução à vida e à obra de La Fontaine. Toda a gente conhece este nome associado às fábulas que o tornaram célébre assim que foram publicadas em 1668. La Fontaine descendia da nobreza rural, com fortuna, mas mesmo assim escreveu a sua obra à sombra dos mecenas da altura. Foi, no começo da carreira, pensionário do ministro Fouquet no seu palácio de Vaux, que cantou em versos. Frequentou os mais famosos salões literários, na época já impulsionados por mulheres. Foi amigo e admirador dos grandes criadores da altura. Escreveu tragédias, libretos de ópera, poemas diversos, um relato de viagem e contos quase tão famosos como as fábulas. Mas foram estas que o tornaram um dos criadores mais populares de sempre. Vila do Conde 2015 (4/5)

Death of an Expert Witness (P.D. James, 1977)

Há muitos anos que não lia P. D. James, o meu autor preferido da literatura policial juntamente com Patricia Highsmith. A Taste for Death, o romance que se seguiu a este, é por exemplo um dos melhores livros que li. Mas  Death of an Expert Witness não me pareceu tão bom. P. D. James é excelente ao descrever o ambiente que vai servir de contexto às mortes que se vão suceder numa aldeia inglesa onde existe um Laboratório de medicina legal, que serve de apoio á polícia criminal. Só para conhecer as vidas sem brilho de cada personagem vale a pena ler o romance. É o realismo herdeiro do século XIX que está presente nestes romances policiais, que parecem oferecer uma comédia humana para os tempos de hoje. O menos interessante para mim é a resolução dos crimes, que oferece um virtuosismo de imaginação que encontramos obviamente em Agatha Christie mas que nunca me interessou. De qualquer forma um regresso empolgante à obra de P. D. James. Leitura no Brasil 2015 4/5

A dama do cachorrinho e outras histórias (Tchekov, 2009)

Tchékhov é o meu russo preferido. Escreveu as peças de teatro de que mais gosto e que revejo sempre com prazer e escreveu alguns dos melhores contos que já li. A sua obra data das últimas décadas do século XIX mas podia ter sido escrita hoje. A sua prosa virou as costas a muita da poesia do seu século e instituiu uma poética moderna, realista, direta. Li uma seleção dos seus contos, organizados (por ordem conológica da sua escrita) e prefaciados por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares. O prefácio da tradutora é excelente. Diz o essencial que há a saber do universo e do estilo de Tchékhov. A dama do cachorrinho e outras histórias, ed. L&PM Pocket 2009, reeditado em 2012. Lisboa, verão de 2015 Nota: 5/5

Sandition (Jane Austen, 1825)

SANDITION (1817-1825)
Relógio d'Água 2018
Leituras, outubro de 2015

Hélio Pellegrino (Paulo Roberto Pires)

Hélio Pellegrino (Paulo Roberto Pires)
Leitura 2015
Perfis do Rio é uma coleção de livrinhos biográficos sobre personalidades cariocas de nascimento ou de adopção. Através desta coleção já fiquei a conhecer alguma coisa sobre certos nomes de que apenas conhecia... o nome. Hélio Pellegrino, por exemplo. Foi um poeta notável mas sem obra publicada em vida. Foi um importante psicanalista e um dos maiores resistentes à ditadura dos militares, tendo-se destacado em 1968 no confronto contra o governo enquanto representante dos intelectuais. Não tinha papas na língua, é o mínimo que se pode dizer dessa sua intervenção e de muitas outras contra os políticos e os poderes autoritários que também iam tomando conta da instalação da Psicanálise na sociedade brasileira dos anos 1970. Fundou ou ajudou a fundar a Clínica Social de Psicanálise, que alargou o acesso a este saber médico à população mais carente, e promoveu os importantes "Encontros Psicodinâmicos". Fazia parte do quarteto mineiro, com os escritores Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende, todos amigos desde infância ou adolescência em Minas Gerais. Um grande caso de amizade que marcou a literatura brasileira e está consagrado no romance O Encontro Marcado de Fernando Sabino. Fica aqui por fim uns versos de Pellegrino, que abrem aliás este livrinho. 

L'homme revolté 
Venho de um negro tempo irredutivel,
anterior a mim.
Vou para um negro tempo desmedido,
infinito campo de ébano
onde me apagarei.
De uma escarpa a outra,
transfixado entre negror e negror,
danço - centelha breve - o meu furor.

Fim, romance (Fernanda Torres, 2013)

Fim, romance (Fernanda Torres, 2013)

Há dois anos a grande atriz brasileira Fernanda Torres estreava-se no romance e provava ser um grande talento no campo literário. O seu livro chegou em 2015 às livrarias portuguesas e francesas e também nestas terras europeias recebeu não poucos elogios. Eu gostei muito de ler este romance que trata do mundo masculino, mas onde as mulheses nunca ficam de fora. Chega ao fim, em anos diferentes, a vida de cinco amigos de longa data e temos direito a um resumo bem humorado das ilusões e desilusões de cada um deles. O narrador está sempre a mudar o que não quer dizer que a voz de cada narrador seja tão singular como deveria ser. Talvez seja esse um dos defeitos da obra: essas personagens masculinas parecem iguais na linguagem com que descrevem a sua vida e a dos outros, mesmo que essas vidas possam ser muito diferentes. Fernanda Torres já tem uma longa experiência com a escrita, através das crônicas que escreve para revistas conhecidas. Essa aprendizagem marcou a linguagem do romance: ágil, colorida, coloquial, carioca. Paris 2015    3/5

A Cordilheira (Daniel Galera, 2012) ETC

A Cordilheira (Daniel Galera, 2012)
Este livro iniciou a coleção Amores Expressos da Companhia das Letras, uma coleção de histórias de amor passadas em cidades famosas. A história de Galera decorre em Buenos Aires e narra o encontro entre uma jovem escritora brasileira e um seu fã argentino, também ele escritor e ambos pouco à vontade com as suas primeiras tentativas literárias publicadas. Ela conhece igualmente os amigos do namorado argentino, também escritores e amantes da literatura, que formam um estranho grupo que leva a literatura demasiado a sério: para eles, a vida e a literatura devem ser uma só. A história de Galera é imprevisível e chega aos limites do fantástico, mas o melhor é que o seu estilo narrativo adequa-se sem firulas à matéria ficional. Uma grande obra da literatura brasileira contemporânea. Verão de 2015 NOTA: 4/5

BIBLIOTECA
Até o Dia em que o Cão Morreu (2003)
Mãos de Cavalo (2006) 

Biblioteca ALFRED DE MUSSET

Ensaio de Sylvain Ledda
Como vi há pouco a peça Il ne faut jurer de rien, de Musset, e gostei muito, resolvi ler a sua biografia ilustrada e em formato de bolso que Sylvain Ledda propõe na incomparável coleção Découvertes Gallimard. Musset é um dos grandes nomes do romantismo francês e quando se estreou, a revolução romântica no teatro estava a acontecer com Hugo, Dumas e Vigny. Porém, Musset falhou completamente a entrada nessa rampa para o sucesso artistico e mundano que era o teatro. A estreia mal acolhida da sua peça de estreia levou-o a continuar o teatro no papel, publicando com regularidade as suas peças em revistas e volumes. Quando foi redescoberto, o seu teatro tornou-se um dos mais queridos dos franceses. Hoje é um dos autores mais representados na Comédie Française. Mas Musset foi famoso também pelos seus versos que cantam a juventude e o amor como poucos e que fez a sua fama em vida. A sua obra seguia de perto a sua biografia e o seu livro em prosa mais famoso, La Confession d'un enfant du siècle (1836), é precisamente um romance biográfico. Famosas também ficaram as suas relações com mulheres artistas, como George Sand, assunto de vários livros e filmes até à data. Paris 12.2015 (4/5)


Terence Rattigan (2000)

 
Ensaio de Michael Darlow (2000)
A biografia de Terence Rattigan é um daqueles livros que nem em sonhos pensava em ler. Encontrei-o nuns saldos de Saint-Ouen e comprei-o junto com outras biografias de personalidades britânicas. Foi uma leitura empolgante. O autor do livro fez uma excelente pesquisa e interpreta a vida e a obra de Rattigan de forma inteligente, conseguindo mostrar que nas peças do dramaturgo inglês se encontram as grandes linhas da sua vida.
Foi através do cinema que tomei conhecimento de Rattigan. Nos últimos 20 anos pelo menos três memoráveis filmes adaptaram peças que ficaram famosas quando se estrearam, tornando Rattigan o mais famoso dramaturgo inglês dos anos 1940/50: The Browning Version (Mike Figgis, 1994), The Winslow Boy (David Mamet, 1999) e The Deep Blue Sea (Terence Davies, 2011), este último uma obra-prima do cinema recente. Mas estas peças tiveram adaptações para cinema em vida do autor, que eu gostaria muito de ver. Rattigan desprezava o cinema, mas escreveu numerosos argumentos originais ou baseados nas suas próprias peças; o cinema era encarado como uma fonte de dinheiro e pouco mais. Rattigan fez uma parceria, digamos assim, com o realizador Anthony Asquith, com quem trabalhou em pelo menos dez filmes. Vi há muitos anos na televisão um ou outro filme dos dois, mas após a leitura desta biografia fiquei com imensa curiosidade em ver todos os frutos desta colaboração excecional. Não antecipo grandes surpresas cinematográficas da parte de Asquith, mas gostaria de conhecer os textos de Rattigan. Este também trabalhou com realizadores como David Lean, Harold French, Laurence Olivier ou Anatole Litvak.
Terence Rattigan era homossexual e grande parte da sua vida decorreu quando os atos homossexuais eram punidos com prisão pelo Direito britânico. Portanto viveu a sua sexualidade da forma mais discreta possível de modo que nem a sua mãe terá sabido da orientação sexual do filho. As suas peças não abordam diretamente a homossexualidade (seriam proibidas por Lord Chamberlain, a instituição censória da época), mas o subtexto das mesmas revelam os dilemas interiores do seu autor. Quando o dramaturgo era vivo, a sua obra teve uma consagração comercial e crítica notável, mas apenas na Grã-Bretanha. Regularmente as peças estreavam em Nova Iorque mas sem sucesso. O universo temático das peças de Rattigan ia ao encontro da sensibilidade dos britânicos, centrando-se na exposição da repressão dos sentimentos e das dificuldades em viver uma vida amorosa sincera e transparente, no quadro casamento. Rattigan era ambicioso, no sentido em que tentava escrever pelo menos uma peça que lhe garantisse um lugar entre os grandes. É um daqueles casos em que o enorme sucesso consecutivo das suas peças (entre o fim dos anos 30 e o surgimento da geração dos angry young men em meados dos anos 50) produziu a desconfiança de que se tratava de um autor comercial mas com uma excelente técnica dramatúrgica. Rattigan sofreu sempre com esse estigma, tendo sido extremamente sensível à crítica das suas peças.
Como acontece com as biografias dos artistas da indústria do espetáculo, a vida deles cruza-se com a de muitos outros. No caso de Rattigan, há sempre boas histórias a serem contadas que envolvem pessoas míticas como John Gielgud, Laurence Olivier, Elizabeth Taylor, Richard Burton ou Vivien Leigh. A minha preferida, porém, envolve Marilyn Monroe, que protagonizou com Olivier um filme escrito e baseado numa peça de Rattigan: The Prince and the Showgirl (1957), realizado pelo próprio Olivier. Embora Rattigan desprezasse o cinema, adorava as suas estrelas. Foi Marilyn que contactou Rattigan para adaptar uma peça sua. Rattigan não desejava outra coisa. E ficou subjugado pela estrela loura no seu primeiro encontro. A produção de The Prince and the Showgirl originou o filme recente My Week with Marilyn (2011), de que gostei e que voltarei a ver, pois agora conheço alguns pormenores de toda essa história que me levam a vê-lo com outro interesse.
Enfim, uma das melhores biografias que li. Terence Rattigan. A Man and His Work, de  Michael Darlow, Quartet Books, 2000 (edição revista da edição original de 1979) 04.2015 5/5

Will Eisner (Michael Schumacher, 2010)

Will Eisner (2010) Autor: Michael Schumacher Bloomsbury 2010 Hardcover BIBLIOTECA F