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Luzes da Boemia (1920)

Peça de teatro de Valle-Inclán

Foi muito bom ter visto, pela primeira vez, uma peça de Valle-Inclán, grande nome do teatro espanhol. Aliás, este texto é emblemático do género esperpento, criado pelo próprio Valle-Inclán, numa época que teve tantas revoluções na arte. Luzes de Boemia apresenta os últimos dias de Max Estrella, poeta cego e decadente, reconhecido por poucos mas destratado por quase todos. O poeta, condenado à miséria e à doença, faz ferozes críticas à sociedade, sobretudo aos poderes que tudo podem e mandam. Encenação de Santiago Roldós. Salvador da Bahia 04.2017 Teatro da Vila Velha 3/5

A TASTE OF HONEY

A Taste of Honey (Tony Richardson, 1961)
O cinema Champo teve a feliz ideia de apresentar uma trilogia representativa do Free Cinema, movimento de renovação do cinema britânico na passagem dos anos 50 para os anos 60. O Free Cinema deve muito à renovação nos anos 50 do teatro daquele país e é disso exemplo A Taste of Honey, originalmente uma peça de Shelagh Delaney, que assinou com Richardson o argumento deste clássico. A protagonista é uma jovem adolescente com uma péssima relação com a mãe, que coleciona amantes e quartos alugados onde a filha se sente a mais. A jovem (Dora Bryan, que ganhou o Bafta para melhor atriz) decide viver de forma independente com um amigo homossexual (uma das primeiras personagens homossexuais no cinema britânico). A vida das personagens é tão sombria e dura quanto a paisagem onde vivem, acentuada pela fotografia a preto e branco de Walter Lassally. O filme recebeu 3 BAFTA, para melhor filme britânico, melhor argumento e melhor atriz. Um dos filmes de que mais gostei de ver no último ano (tinha-o visto meses antes no Cineclube 7e Genre e agora no Champo). Paris 11.2017 Le Champo 4/5 Porto 22.12.2024 Batalha

THE LION IN WINTER (James Goldman)

The Lion in Winter (Anthony Harvey, 1968)
Desde muito jovem que ouço falar deste filme por causa do óscar dado a Katherine Hepburn. Mas nunca o tinha visto. Agora é reposto nas salas em cópia restaurada. Trata-se de um bom filme que mantem as qualidades que foram reconhecidas na altura da estreia. Para começar, um texto muito bom: o original é uma peça consagrada da Broadway, de James Goldman (Oscar), que assina a adaptação da sua peça para o cinema. E há ainda os atores, um festival de atores: Peter O'Toole (Golden Globe), Katharine Hepburn (Oscar e BAFTA), John Castle, Anthony Hopkins. Já há muitas obras (romances, filmes, séries) sobre os dramas familiares da realeza britânica e The Lion in Winter é uma dessas obras que ficaram. O único senão para mim é tratar-se de um filme que nunca consegue afastar-se, autonomizar-se da sua origem teatral (acontece o mesmo com o recente Fences), o que acaba por ser limitativo. O filme recebeu sete nomeações para o óscar, tendo ganho três (atriz, argumento e score musical para John Barry). Paris 03.2017 Mac-Mahon 3/5

24 h de la vie d'une femme (Stefan Zweig)

24 h de la vie d'une femme é uma peça de teatro que adapta o breve e famoso romance de Stefan Zweig. Uma mulher tenta ajudar um jovem jogador de casino, que se arruina ao jogo numa noite. Entre eles nasce uma relação de amor que tem a paixão do homem pelo jogo o seu principal obstáculo. Esperava mais desta peça, apenas gostei na verdade dos três atores. Paris 02.2017 TNO 2/5

Le Dibbouk (Shalom Anski, 1917)

Le Dibbouk ou entre deux mondes é considerada a obra-prima do teatro escrito em yiddish. Conta a história de uma noiva que é possuída pelo espírito do rapaz que amava e que morreu quando ela foi prometida a outro. A Igreja, através de um exorcismo, vai tentar salvar a vida da jovem... Uma peça interessante mas pouco mais do que isso. Paris 03.2017 TNO 3/5

COLOMBE (1951)

Colombe é uma peça brilhante de Jean Anouilh, que descende das comédias de boulevard de Feydeau e outros. Vi a produção da Comédie des Ternes que é simplesmente excelente. Duas horas e vinte minutos de puro divertimento, sem um momento apagado. Há atores melhores do que outros, é certo, por vezes falta subtileza no jogo de certos atores, mas nada que impeça o brilho de toda a produção. Passou a ser uma das minhas peças de teatro preferidas. A história? Colombe, uma jovem tímida, casada com um homem que vive mal com todos inclusive com a sua família, é recebida por uns tempos pela sogra que é uma célebre atriz de teatro. Colombe transforma-se completamente. Torna-se atriz e liberta-se do mundo pudico e asfixiante que o marido lhe impunha. Paris 01.2017 TNO 4,5/5

PORT-ROYAL (1954)

Port Royal é uma grande peça de Montherlant sobre as freiras rebeldes de Port-Royal, que em 1664 recusaram assinar um documento da hierarquia (do Papa) e acabaram por ser dispersadas como forma de as punir e obrigar a obedecer aos superiores. Bem encenada por Céline Bédéneau, o grande trunfo desta produção é  o magnífico conjunto de atrizes, que conseguem defender com grande talento o difícil texto de Montherlant. Paris 03.2017 TNO 4/5

LE PAIN DUR (1918)

Fiquei deveras impressionado com esta peça de Paul Claudel. Le pain dur é uma peça complexa, muito rica quanto às temáticas e às personagens, que merece ser lida. Todas as boas peças também merecem ser lidas, mas fiquei com vontade de conhecer melhor a história que nos é apresentada em Le pain dur. Um homem rico e egocêntrico despreza o filho a ponto de pensar em casar com a noiva dele. O filho provoca a sua morte e pretende desfazer-se do passado e de tudo o que o pai valorizava. Mas outras personagens também não conseguem lidar com a sua herança: uma mulher só pensa em lutar para criar a sua pátria, uma Polónia que ainda não existia à época, e outra mulher sente-se estrangeira em qualquer lugar, pois ela é judia, e também Israel não existia à época da ação da peça. Boa encenação de Agathe Fourcade, com Perrine Lagarde, Joseph Dekkers, Antoine Masurel, Juliette Bridier, Vincent Clément. Paris 09.2017 TNO 4,5/5

La Règle du Jeu (Comédie-Française, 2017)

A encenadora brasileira Christiane Jatahy apresenta uma versão cénica do clássico de Jean Renoir. Uma soirée entre amigos da classe alta acaba em tragédia. Jatahy filma e exibe o vídeo da chegada dos convivas à mansão dos anfitriões e o início da festa, mas grande parte desta é apresentada no palco. Portanto mistura de cinema e teatro numa produção desconcertante para os hábitos da Comédie Française. Paris 05.2017 CF 3/5

Queen Anne (Helen Edmundson, 2015)

Emma Cunniffe & Romola Garai
Desde Shakespeare que os ingleses adoram pôr em cena os seus reis e rainhas. Desta vez, Helen Edmunson escreveu uma peça sobre Anne, soberana de 1700 que tem a tarefa espinhosa de substituir colaboradores (e amigos) de longa data por outros, inclusive de diferente cor política, sujeitando-se aos baixos jogos de poder na corte. No centro de tudo aparece Sarah Churchill, amiga de longa data de Anne, que vê a sua estrela empalidecer na corte. A relação entre as duas deteriora-se a olhos vistos e uma das melhoras coisas da peça é a transformação psicológica da rainha, ao tomar decisões para o bem público, mas contrárias aos seu coração e amizade (amor?) pela amiga. Um bom espetáculo. Londres 09.2017 Theatre Royal Haymarket 3,5/5

Le péché et la grâce (Giraudoux, 1943)

Jean Giraudoux escreveu o argumento e os diálogos de Le péché et la grâce (1943), primeiro filme de Robert Bresson. Há poucos anos Jean-Luc Jeener transformou esse argumento numa peça de teatro, que vi agora. O trabalho feito é impecável, tendo resultado numa peça muito intensa e densa sobre alguns aspectos essenciais da fé católica. Uma jovem chega a um convento com o plano de converter criminosas, convencendo-as a integrar a ordem. Mas o seu amor-próprio excessivo e a sua crescente rebeldia vai perturbar o funcionamento do convento e a sua própria saúde mental. Todas as atrizes são excelentes, mas destaco mesmo assim a protagonista, Marie Hasse. Muito bom. Paris 03.2017 TNO 4/5

Marlène Dietrich - Les Nuits Blanches de l'Ange Bleu (2017)

Marlene Dietrich no seu apartamento parisiense rememora o fio da sua vida, em particular dos muitos homens que conheceu, como um tal de Jean (Gabin?) que a marcou sobremaneira. Esta peça musical (Luana Kim/Dietrich canta em várias línguas) foi escrita e é interpretada por Luana Kim. As canções são o melhor do espetáculo. Paris 11.2017 TNO 2,5/5

Testament de Marie (Colm Toibin, 2013)

Colm Toibin escreveu esta peça a partir do seu romance The Testament of Mary (2012). A peça foi criada no ano seguinte na Broadway, com encenação de Deborah Warner, com Fiona Shaw como única intérprete em palco. Deborah Warner encenou também a criação francesa, Le Testament de Marie, no teatro Odéon. Marie é a mãe de Jesus, que é Dominique Blanc nesta produção. Maria narra à sua maneira a vida do seu filho até à crucifixação. Blanc é brilhante, mas não consegue eliminar o tédio que senti quando vi a peça. A prosa de Toibin é... prosa de romance, e isso nem sempre funciona bem em palco. Paris 05.2017 Théâtre de l'Odeon 2,5/5

Les Trois Sœurs (Simon Stone, 2017)

Simon Stone reescreveu as Três Irmãs de Tchekhov mas pouco sobrou do autor russo. Três irmãs tentam ser felizes nos tempos de hoje mas o fracasso, sobretudo amoroso, está sempre à espreita. A amargura, a desilusão, garante-lhes um estado de desespero crescente. Uma casa transparente que se move é um grande achado desta produção. Paris 11.2017 Odéon 3,5/5

J'étais dans ma maison et j'attendais que la pluie vienne (Lagarce, 1994)

J'étais dans ma maison et j'attendais que la pluie vienne (Lagarce, 1994)
J'étais dans ma maison et j'attendais que la pluie vienne é a primeira peça que vejo de Jean-Luc Lagarce, cujo universo passei a conhecer através de um filme recente (Juste la fin du monde, de Xavier Dolan). Peça e filme têm personagens e situações muito semelhantes: depois de anos de ausência, um homem regressa à casa da família mas esse reencontro é muito tenso. Em J'étais dans ma maison... são cinco mulheres que suspenderam a vida pessoal enquanto esperavam pelo irmão mais novo, expulso da casa materna pelo pai. O texto é belíssimo e na história há ecos das três irmãs de Tchekhov e da madame Butterfly, que tratam de vidas dedicadas à espera de algo ou alguém que nunca se manifestará, pelo menos na forma idealizada pelas personagens. Gostei da encenação de Magalie Claustres e das cinco intépretes: Magalie Claustres, Elidie Duranton, Hélène Martinez, Noëlie Merlo, Marie-Cécile Veyrenc. Paris 12.2017 TNO 4/5

Kristin Lavransdatter, La Rose du Nord (2017)

Kristin Lavransdatter (1920-1922) é a grande obra da escritora norueguesa Sigrid Undset. Narra a vida de uma mulher na Idade Média, na Noruega, das suas relações com os pais e o marido, e a sua decisão de se recolher a um convento no final da vida. Vi há dias uma adaptação para teatro dessa obra, intitulada Kristin Lavransdatter, La Rose du Nord (2017), encenada por Sei Shiomi, e interpretada por Helena Dubiel Lorenzen. Théâtre du Nord Ouest 12.2017 3/5

LE MISANTHROPE (1660)

Paris 09.2022 TNO

Tinha visto esta peça no ano passado no Porto, em português, e preferi sem dúvida essa produção à que vi hoje, na Comédie-Française, encenada por Clément Hervieu-Léger. Muito por culpa da dificuldade em compreender integralmente as falas em francês. Essa dificuldade impede a concentração numa das peças mais difíceis de Molière. Paris 01.2017 Comédie-Française  2,5/5
 
Gostei muito do Misantropo com pronúncia do Norte que o Teatro de São João propôs. A peça de Molière vê a sua atualidade confirmada com a modernização que o encenador Nuno Cardoso fez ao texto seiscentista francês. O salão mundano do argumento original passa a um salão onde reina a música disco. Mas os problemas da reputação da elite e a misantropia justificada do protagonista perante uma sociedade baseada na bajulação inter-pares cabem que nem uma luva no nosso presente facebookiano. À parte o vocativo majestático e a estrutura clássica da linguagem de Molière, a língua do escritor passa bem a prova do tempo e a prova dos novos (muitos adolescentes na platéia). Porto 04.2016 TNSJ 4/5 

L'HÔTEL DU LIBRE-ÉCHANGE (1894)

O ESPETÁCULO (Odéon, 2025)

O ESPETÁCULO (Comédie-Française, 2017)
Nada como assistir a uma peça de Feydeau para passar uma noite divertida. L'hôtel du libre échange (1894), escrita por Feydeau com Maurice Desvallières, repisa o tema do adultério, um dos mais frequentes das comédias de boulevard. Vários casais pouco legítimos se encontram por uma noite no hôtel du libre échange... Um espetáculo (de Isabelle Nanty) a rever. Paris 05.2017 Comédie-Française 4/5

Polyeucte (1641)

Polyeucte (1641) é uma tragédia de temática histórica e religiosa escrita por Pierre Corneille e hoje estudada nas escolas francesas. Foi criada pelo Théâtre du Marais em 1641 e conta a história exemplar do cristão Polyeucte, que morre às mãos dos Romanos no século III, por não ter renegado a sua religião. O texto de Corneille é denso e exigente para os espectadores de hoje, mas eu fui conquistado (e todos os que estavam na sala do teatro) pelo impressionante trabalho dos atores (em especial Louise Lemoine-Torres, no papel de mulher de Polyeucte). A produção do Théâtre du Nord Ouest é uma das melhores que vi neste teatro. Paris 06.2017 TNO 4,5/5

IPHIGÉNIE (Racine, 1674)

 

Iphigénie será sacrificada pelo pai para aplacar a ira dos deuses. Segue-se a reação dos mais íntimos da heroína, a mãe e o futuro esposo. Infelizmente, o tom da peça, nesta produção, resvala para o histérico. Esta é uma das peças menos interessantes que vi de Racine. A encenação de Rémi de Monvel e a direção de atores estão aquém do que costumo ver no Théâtre du Nord-Ouest. Paris 06.2017 NOTA: 2,5/5

Voltei hoje a frequentar um dos meus locais preferidos de Paris: o Théâtre du Nord Ouest. Deve ser único no mundo, pois propõe regularmente integrais de dramaturgos, mesmo que isso implique a encenação de dezenas de peças e a leitura de tantas outras. Há semanas começou a integral de Racine, de quem nada vi antes. Iphigénie é uma tragédia pouco encenada hoje, que retoma a trama de Eurípedes. Iphigénie, filha do rei de Micenas Agamemnon, vai ser sacrificada pelo pai para aplacar a ira dos deuses. Em Eurípedes o sacrifício consuma-se, em Racine não. Afinal a peça foi estreada perante a corte em Versailles, que não devia estar para suportar tamanho desenlace trágico. A peça conta com quase dois mil versos alexandrinos, mas os atores dirigidos por Jean-Luc Jeener tiveram o talento de tornar o texto mais inteligível do que muitas comédias francesas contemporâneas. O grande trunfo do espetáculo é a palavra de Racine. Durante três horas a minha atenção foi muito desigual, mas muitas vezes foi um encanto escutar a poesia de Racine. Paris 01.2015 TNO
Hall do Théâtre du Nord Ouest

Tiago Ferro O Pai da Menina Morta 2018 (Tinta-da-China 2018)

Tiago Ferro O Pai da Menina Morta 2018 (Tinta-da-China 2018) NT