De longe, o livro menos interessante que li de Muriel Spark. Conta a história de um realizador consagrado, afastado do seu trabalho devido a um acidente de trabalho. Enquanto recupera, acamado, visitam-no os seus mais próximos, a mulher, as filhas, os genros, e deles vamos sabendo sobretudo a vida amorosa, quase sempre conturbada, e os sentimentos ambíguos que o realizador nutre por uma das filhas. A narrativa ganha alguma tensão quando Marigold, a filha menos amada e feia (segundo o pai), desaparece, e a polícia, um detetive, a irmã Cora e os pais se põem em busca dela. Mas nem este episódio saboroso salva esta história da modorra que me suscitou desde o início. Salvador Bahia 2,5/5
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Isaac Bashevis Singer: A Life (Florence Noiville, 2003)
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| Isaac B. Singer: A Lifel (Farrar Straus Giroux, 2006) |
Isaac Bashevis Singer: A Life (Florence Noiville, 2003)
Apenas conheço a obra de Isaac Bashevis Singer de forma indireta, pelos filmes, nomeadamente a adaptação de Barbra Streisand (Yentl, 1983) de un conto do escritor. A leitura da biografia de Singer, da autoria da francesa Florence Noiville, levou-me a desejar muito ler os romances e os contos do autor que sempre escreveu em Yiddish. A sua vida impressiona, pois atravessou incólume as tragédias do século. Nasceu na Polónia e lá viveu os primeiros 30 anos de vida. Viu os seus (a comunidade judia da Polónia) serem perseguidos pelo polacos, russos e alemães. Antes da segunda guerra seguiu o irmão mais velho, Joshua Israel, também escritor, até Nova Iorque, onde ficaria durante o resto da sua vida. Nos anos 50 tornou-se famoso, primeiro nos EUA, depois no mundo inteiro, quando os seus contos foram publicados (em inglês) em revistas importantes. Facto único na história da literatura: Singer escreveu uma obra dupla, por um lado em Yiddish, por outro em inglês (com a ajuda de vários tradutores), mas estes não eram uma versão fiel dos primeiros, mas tinham características próprias para serem bem recebidos pelo público não judeu. Como muitas vezes acontece na arte, Singer retrata-se nos protagonistas de vários dos seus romances e contos, nomeadamente no que respeita à sua relação libertina com as mulheres (esta dimensão da sua obra nunca foi bem recebida pelos judeus). Em 1978, quando recebeu o Nobel, a sua obra estava nos píncaros (mas ainda levou algum tempo a ser traduzida na Polónia, terra natal de Singer), hoje não sei em que pé se encontra, junto dos leitores, uma obra que me parece fascinante. Paris 4/5
Body of Evidence (Patricia Cornwell, 1991)
Dos três policiais que li de Patricia Cornwell, Body of Evidence (1991) é o melhor. Uma escritora pouco conhecida é assassinada de forma particularmente violenta, e pouco depois a mesma sorte sai ao seu mentor, um escritor célebre e recluso, aliás um dos suspeitos da morte da escritora. Na senda destas mortes, seguem-se outras duas associadas ao mesmo caso. Não tarda, o assassino escolhe como vítima Kay Scarpetta, heroína habitual dos policiais de Cornwell. Ela é médica chefe legista, peça-chave na descoberta dos autores de grandes crimes. Brilhante. Paris 2019 Mémoires Mortes (Editions du Masque, 1993) 4,5/5
Postmortem (Patricia Cornwell, 1990)
Postmortem (1990) é o primeiro romance de Patricia Cornwell com a personagem Kay Scarpetta, que se tornou uma das mais famosas personagens da literatura policial. Uma série de mulheres são mortas por um assassino que deixa no local do crime o cheiro a bórax, substância encontrada no sabão. Um assassino com a mania da limpeza, entre outras manias... A médica Scarpetta, que faz a autópsia das vítimas, não está bem acompanhada na investigação, entre um superior que a quer comprometer e um colega preconceituoso e machista. Envolve-se demasiado nas investigações que acaba por pôr a sua vida em risco... Até à próxima, Kay. Paris 2019: 4/5
The Children of Men (P. D. James, 1992)
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| Les fils de l'homme (Fayard, 1993) |
The Children of Men é uma incursão rara de P.D. James na ficção científica. Sem dúvida o seu lugar é na literatura criminal. O estilo é bem o da autora e encontro novamente o gosto pelas descrições minuciosas dos grupos sociais. Esse é o ponto que me agradou no romance. A descrição de uma sociedade politicamente estável mas ameaçada por dentro: há muitos anos que não nasce nenhum bebé, os homens e as mulheres tornaram-se estéreis. Como gere esta sociedade cada vez mais envelhecida o desespero generalizado? Interessante. Mas a trama, que anda à volta de um grupo de rebeldes ao poder (mais ou menos autoritário), não é nada cativante, para mim. Entre os elementos do grupo, há uma mulher que está grávida e que, tal Maria, trará esperança ao mundo. Uma desilusão assinada por P.D. James. Paris 04.2019 2/5
L'Agneau (François Mauriac, 1954)
A primeira cena é a minha preferida: num comboio que se dirige a Paris encontram-se frente a frente dois jovens conterrâneos, mas de origem social distinta: Jean de Mirbel, de uma família terratenente, pretende divorciar-se, e Xavier, de condição modesta, prepara-se para se formar padre. Este quer evitar o divórcio de Jean, o qual, por sua vez pretende dissuadir Xavier de ir para o seminário. Os dois têm vivências religiosas opostas, Jean é crítico em relação às exigências e aos sacrifícios que o catolicismo impõe, e Xavier é obcecado pela dimensão sacrificial da sua conduta. Falha a entrada no seminário para reunir os esposos Mirbel e sacrifica tudo, incluindo a própria vida, para garantir uma vida melhor a uma criança órfã que os Mirbel pretendem devolver ao orfanato de onde ele veio. Vila do Conde 07.2019 3/5
Nada a Dizer (Elvira Vigna, 2010)
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| Nada a Dizer (Elvira Vigna, 2010) Ed. Quetzal 2013 |
Descoberta de uma escritora brasileira, há muito consagrada no seu país. Esta edição é o primeiro livro dela publicado em Portugal. Uma mulher que mora em São Paulo conta como o marido a traiu com uma amiga no Rio, as viagens, os encontros no mesmo hotel e de como essa relação secreta e os segredos inerentes interferiram com a empresa que o casal mantinha. Bom romance. Leitura P. Varzim 04.2019 NOTA: 3,5/5
Sem Dizer Adeus (Heloneida Studart, 2000)
Sem Dizer Adeus (Heloneida Studart, 2000)
Ed. Quidnovi 2006
Um romance feminista surpreendente. Deve muito a Nelson Rodrigues, pelas personagens e pela trama. Um condensado das humilhações da mulher numa sociedade corrupta e machista. Mulheres que de geração em geração enlouquecem, matam-se, sacrificam-se por outras, adaptam-se ou até se vingam matando o marido. A autora é fundadora do movimento feminista brasileiro. E escreveu um grande livro. Leitura, agosto de 2019 V. Conde 4/5
Biblioteca SHAKESPEARE
Shakespeare (2006)
Autor: Claude Mourthé
Folio Biographies n°18
BIBLIOTECA
Leituras 04.2020
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| Primeira edição: Gallimard "Découvertes", 1991 Autor: François Laroque |
Como é sabido, conhecemos muito pouco sobre Shakespeare, o homem. E no entanto ele escreveu algumas das obras mais eternas da literatura e por elas foi reconhecido em vida, referido em muitos documentos e agraciado pelos reis. Quando era vivo apenas foi publicada a sua obra poética, sendo os Sonetos o seu livro mais importante. As suas peças, tragédias ou comédias, foram muito representadas pelas principais companhias de teatro da altura, inclusive os grupos patrocinados pelos reis (Queen Elizabeth e King James). Não foram publicadas para não serem utilizadas por outras companhias, para permanecerem um exclusivo dos grupos para os quais Shakespeare (também ator) trabalhava. Em 1623, dois amigos atores reuniram todas as peças do Bardo e publicaram-nas no First Folio, que é desde então a referência para a edição e a representação das peças. Esta biografia revelou-me mais coisas sobre o teatro em Londres na viragem do século 16 para o século 17 do que sobre Shakespeare, do qual vamos acumulando muitos factos e interpretações à medida que lemos sobre as suas peças ou quando as vemos. Pouco antes da época de Shakespeare o teatro era rudimentar e confundia-se com outros divertimentos de feira. Mas na segunda metade do século 16 já havia em Inglaterra algumas obras teatrais marcantes como o Doctor Faustus de Christophe Marlowe (1589). A geração de Shakespeare mudou a cena teatral para sempre. E a Londres moderna, com muitos teatros fixos espalhados pela cidade, começava ali. Vila do Conde 12.2019 Nota: 4/5
Arthur Miller (2003)
Ensaio de Martin Gottfried (2003)
Nunca tinha lido nada sobre o teatro americano, muito menos com a seriedade e abundância de pormenores como esta biografia de Arthur Miller. Este escreveu talvez a grande peça de teatro americano de sempre, Death of a Salesman. Escreveu outras grandes peças (não muitas) mas essa é a melhor. Quem criou (encenou) essa e outras peças de Miller foi o seu amigo Elia Kazan, outro expoente da renovação do teatro americano. É talvez a parte mais fascinante do livro, quando vemos o trabalho conjunto para revelar em cena o trabalho do génio de Miller. Este também é conhecido por ter casado com Marilyn Monroe: foi um dos casamentos do século 20. Para quem não abria mão da sua privacidade, Marilyn foi uma escolha inesperada. The Misfits, o último filme de Marilyn, parte de um conto de Miller, mas na altura já estavam separados. Miller foi sempre defendido pela crítica europeia mas o mesmo não se passava com a crítica americana. Na verdade, só ouvira falar de duas peças suas, do início da sua carreira, o que é pouco para quem escreveu peças até muito tarde. VC 04.2019 4/5
Rachel. La divine tragédie (2002)
Ensaio de Claude Dufresne
Rachel foi uma enorme atriz francesa do tempo do Romantismo, internacionalmente idolatrada, como as turnés que fez pelo mundo o provam. Atuava em francês, mas na época o francês era uma língua segunda para as élites de muitos países. O mais interessante é que Rachel foi uma tragédienne, ela brilhou nas peças clássicas do século 17 francês (Racine e Corneille) e não no teatro contemporâneo, romântico, que estava na moda. No entanto, todos a admiravam, como Victor Hugo. Quanto à sua vida pessoal, será exagerado falar em ninfomania? O livro de Claude Dufresne arrasta-se na narrativa dos seus sucessivos amantes, que pouco tempo ficavam com ela, que eram rapidamente substituídos porque era normal ela ter mais do que um amante no mesmo período. Um Don Juan de saias, sem dúvida. Rachel veio da maior pobreza, passou fome, teve pouca escola, mas conseguiu tornar-se célebre numa arte tão erudita. Notável. Vila do Conde 10.2019 3/5
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Tiago Ferro O Pai da Menina Morta 2018 (Tinta-da-China 2018)
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