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Marina Tsvetaeva. L'éternelle insurgée

Marina Tsvetaeva, eterna rebelde.
Adoro ler biografias. Geralmente leio biografias pouco extensas, para ficar com uma ideia do que foi a vida de determinada personalidade histórica que me interessa por algum motivo, e raras vezes leio biografias-calhamaços, que esmiúçam o mínimo suspiro do biografado. Mas devo dizer que quando li destas biografias de longo fôlego acabei por gostar muito. Lembro-me, por exemplo, do caso de Jean Giraudoux que, não fosse a ambição do biógrafo, não tinha conhecido o papel que o grande dramaturgo francês teve na instrução do exército português no durante a primeira guerra mundial e os escritos que deixou sobre essa experiência. Lembro-me também da leitura de Glória, a genial biografia que Vasco Pulido Valente escreveu sobre a ascensão e a queda de um político português do século XIX. Neste caso, todos os louros vão para o biógrafo. Geralmente um biógrafo não é um grande escritor ou mesmo ensaísta. Há o caso célebre de Stefan Zweig, excelente romancista que foi igualmente um autor de biografias que ainda hoje são reeditadas. E houve também Henri Troyat, grande biógrafo e bom romancista popular, mas de qualidade (foi membro da Académie Française e ganhou o Goncourt por L'Araigne, em 1938). Penso, aliás, que a sua obra romanesca já está a ser esquecida, mas as suas biografias podem ler-se com proveito. Tendo nascido em Moscovo em 1911, Troyat passou quase toda a sua em vida em França. Escreveu sobretudo biografias de escritores russos e franceses. Já tinha lido há uns anos a biografia de Tourgueniev e haja saúde hei-de ler as biografias que ele dedicou aos grandes escritores russos do século XIX.




Tanto paleio introdutório para falar da biografia que acabei de ler há duas semanas e que, por me ter impressionado tanto, não consegui escrever mais cedo umas palavras sobre. 
Marina Tsvetaeva, l'eternelle insurgée, intitulou assim Henri Troyat a biografia que escreveu nos anos 90 sobre a célebre poetisa russa. Marina Tsvetaeva (1894-1941) pertencia à elite intelectual da Rússia de fins do século XIX, pois o pai dirigiu e chegou a fundar um museu de belas artes em 1912, cuja inauguração teve a presença do Tsar. Marina, até ao tempo da Revolução soviética, gozou de uma boa situação material, o que assegurou a sua independência em todos os domínios. Teve uma educação (línguas, música) esmerada e desenvolveu uma personalidade apaixonada e com agudo espírito crítico. Antes da maioridade, viajou sozinha até Paris, o que me deixou perplexo, pois ainda hoje muitas mulheres adultas não se atrevem a fazer uma viagem sozinhas digamos, ao Brasil. Casou-se cedo com Serge Efron e nunca desfez o casamento, apesar das suas ardentes paixões epistolares e não apenas epistolares com promissores (ou consagrados) poetas. Teve uma filha em 1912, ano em que casou. A poesia de Marina foi reconhecida logo ao primeiro livro publicado, Album du soir, em 1910. Nesse ano, ela e a irmã viajaram sozinhas para estarem presentes no enterro nacional de Tolstoi, na datcha Iasnaia Poliana do grande Leão. Para além de Tolstoi, Puchkine e Gogol foram outras referências marcantes na vida espiritual de Marina.
Marina, nesses anos preparatórios da Revolução, vai brilhar no meio literário russo, participando em muitas sessões de leitura de poesia e conhecendo quase todos os grandes nomes desse período excepcional da cultura russa. Mas chega a Revolução e tudo se desfaz. O marido junta-se aos Brancos, que lutam contra os bolcheviques, Marina fica em Moscovo, um tanto indiferente ao que se passava à sua volta. No entanto, não só Marina assiste ao desaparecimento (físico) de grandes nomes da cultura russa com o governo dos bolcheviques, como todo a sua segurança material desaparece, pois os bens e o dinheiro passam agora todo para o Estado soviético. Vivendo uma situação cada vez mais insustentável, pede e consegue autorização oficial para sair do país.
Começa o exílio em 1922, primeiro em Praga, depois em Paris (1925), onde ficará durante quase 20 anos. O relato da sua vida na comunidade russa parisiense nos anos 20 e 30 é a parte mais impressionante do livro, talvez só sendo superada pelo período final na Rússia que a levou ao suicídio.
Em Paris, tal como a maioria dos russos imigrados, Marina vive fechada na comunidade, que tem uma imprensa e uma vida cultural notável mas pouco permeável à vida francesa. Marina leva esse padrão à caricatura. Apesar de dominar a língua francesa, praticamente só lê em russo e não tem relações com franceses, apesar da sua fama de grande poetisa russa (e do prestígio poético dos russos, tendo Ivan Bounine recebido o prémio Nobel em 1933). Marina apenas sonha com a sua Rússia, apesar de quase todas as notícias que de lá chegam serem desapontantes.
Entretanto, o seu marido evolui politicamente, passando pouco a pouco para o lado dos bolcheviques, chegando mesmo a participar no recrutamento de russos emigrados que quisessem regressar à União Soviética. Começa a nascer e a crescer com força em Serge Efron e na filha deles Ariadna o projeto de regresso à Rússia. Marina é muito céptica, e afirma mesmo que na Rússia soviética será impedida de escrever.
O isolamento da família de Marina em Paris é cada vez mais uma realidade e as posições políticas que os russos de Paris lêem nos poemas e noutros escritos de Marina afastam-na de quase todos. Durante toda a estadia em Paris (que Marina sempre viveu como passageira) Marina viveu de forma absolutamente miserável, muitas vezes vivendo da solidariedade material dos poucos amigos e admiradores que lhe restavam.
Com a guerra entre a Alemanha (que Marina adorava, e cuja língua e literatura conhecia bem) e a Rússia, Marina resolve partir para a terra natal, para onde já tinham ido aliás o marido e a filha. Marina chega à Rússia em plena guerra e tudo corre mal: o marido e depois a filha são levados pela polícia e Marina deixa de ter notícias deles (ele é fuzilado em 1941, a filha será reabilitada em 1955), e ela vive no terror de ter o mesmo destino juntamente com o filho mais novo. O clima de suspeição e medo abafa tudo à sua volta e em breve, com o bombardeamento de Moscovo, exila-se no campo com o filho. Mas nos primeiros dias da sua instalação num cabana miserável, decide que o melhor será não insistir em viver e mata-se.
Henri Troyat não precisa de forçar o pathos pois os acontecimentos vividos por Marina Tsvetaeva são de tal modo eloquentes que a sua simples enumeração produz no (neste) leitor uma angústia derivada da antevisão do desenlace final.
Podemos ler uma boa biografia, e de razoável extensão, e no entanto permanece o mistério do sentido da vida do biografado. É o que acontece com Marina Tsvetaeva, l'eternelle insurgée. As interpretações que Troyat vai tecendo sobre a ação e a obra de Matina são justas e inteligentes, mesmo assim, ficamos perplexos perante o destino desta mulher e da sua família.
Marina Tsvetaeva, l'eternelle insurgée: uma leitura marcante para abrir o ano. Paris 02.2014 (5/5)
Moscovo 1892 - Yalabuga 1941

La Gravure Originale au 18e siècle (1963)

É a primeira vez que leio um texto sobre gravura, geralmente leio sobre pintura: La Gravure Originale au 18e siècle, de Jean Adhémar (Editions Aimery Somogy, 1963). É apaixonante. Adhémar escreve muitíssimo bem, com uma clareza inultrapassável. Por vezes é difícil acompanhar a terminologia própria desta arte, que utilizava técnicas muito diferentes. A gravura no século XVIII atingiu o seu apogeu como arte de reprodução (com vista à divulgação) das obras, antes do surgimento da fotografia. Mas a gravura também é uma arte em si, não sujeita à função de reprodução de obras consagradas da pintura. Tocou-me particularmente o caso de Canaletto, o famoso pintor de magníficas vistas de Veneza. Em meados do século ele realizou algumas gravuras que marcaram a sua época. Tal como na pintura, Canaletto limitou-se a retratar Veneza, mas nas gravuras optou por uma Veneza quotidana, do trabalho, dos ofícios urbanos, dos lugares pouco habitados, enquanto na pintura só encontramos a Veneza pomposa das classes abastecidas, a cidade em festa oficial. Fragonard, Piranesi, Hogarth e Watteau são outros dos nomes fundamentais da arte da gravura do século das Luzes. Excelente leitura. Paris 2014 (4,5/5)

La mauvaise vie (Frédéric Mitterrand, 2005)

La mauvaise vie (2005) é uma das melhores leituras que fiz nos últimos tempos. Não só a obra em si é muito boa, como me levou a questionar algumas ideias feitas sobre a literatura de hoje. Trata-se de um romance autobiográfico de Frédéric Mitterrand, sobrinho do célebre presidente francês. Realizador e programador de cinemas de arte e ensaio, Frédéric era Ministro da Cultura em 2009 quando rebentou a polémica tardia (o livro é de 2005) provocada pelo partido FN tendo como pretexto este seu livro. 
Neste livro, Frédéric M., com a fantasia do romance a colmatar os buracos da memória e os atalhos inconfessáveis, olha para a sua vida sentimental e sexual de uma forma frontal, como poucas vezes se viu. Quando comecei a ler La mauvaise vie, fui surpreendido com a qualidade literária deste empreendimento. Depois fui surpreendido com o retrato que eu ia fazendo do protagonista-narrador (não importa até que ponto coincide com o verdadeiro Frédéric Mitterrand). Uma pessoa atormentada com os seus impulsos e com a pouca gratidão que a vida lhe tem retribuído. E no entanto, não há azedume nem má fé por quem passou (ou não passou da forma que ele esperava) pela sua vida. Pelo contrário, o livro é uma homenagem amorosa por todos os passageiros da sua barca, desde personalidades célebres (Catherine Deneuve e Marguerite Duras, entre as que pude identificar) e anónimas, que desapareceram sem deixar rasto. Neste último caso, estão duas amas da infância e adolescência, a ama boa e a ama má, que merecem de Frédéric algumas das melhoras passagens do livro. Ambas ele tenta encontrar muito mais tarde, décadas depois dos acontecimentos narrados.
Os franceses criaram um subgénero literário que podemos denominar de autoficção, em que o escritor parte de acontecimentos da sua própria vida para construir romances ou narrativas que se situam entre a autobiografia e o romance puro. Aproximando-se ora de um ora de outro pólo, esta literatura cria objetos muito diversos, por vezes sujeitos a acesas polémicas públicas como foi o caso deste livro de Frédéric Mitterand e como foi o caso de Christine Angot, um dos expoentes da autoficção. Para mim, o que conta é a língua ou a voz que cada escritor encontra e vai desenvolvendo de livro para livro. Li obras verdadeiramente admiráveis de Duras, Annie Ernaux, Angot, Catherine Millet e Nina Baraoui, que me fizeram perceber que o facto de se manterem bem perto dos acontecimentos da sua vida particular ou pública e os tomarem como referência central para seu projeto literário, não tem impedido os escritores de serem tão grandes quanto os escritores de literatura de imaginação mais pura. Os tais que mantêm acesa, com melhores ou piores resultados, a tradição romanesca do século XIX que privilegia os romances com histórias e personagens mais ou menos bem definidas. Infelizmente, a literatura portuguesa contemporânea cai, quase toda ela, nesta venerável tradição, americanizada hoje (russa e francesa em oitocentos) e a influência francesa está de tal modo apagada em Portugal que a corrente da autoficção é aí quase inexistente (será exagero?). O romance histórico, o romance de mistérios histórico-intelectuais, o romance mais ou menos realista, urbano ou rural, parecem dominar as livrarias portuguesas e também captar a atenção e o talento dos escritores portugueses. Nunca me passou pela cabeça formar o seguinte pensamento, que pode ser formulado assim: os escritores portugueses deviam pensar em contar a sua vidinha, que é aquela que conhecem melhor. Às vezes, vale a pena começar por arrumar a sua casa, antes de passar a construir o mundo dos outros. 4/5

Anthologie des apparitions (Simon Liberati, 2004)

 
Anthologie des apparitions, de 2004, é o primeiro romance de Simon Liberati. É um romance de personagens, ou mesmo de geração, não há propriamente uma intriga, se não a vida de duas ou três personagens em Paris a partir dos anos 1970. Claude e a sua irmã ocupam muitas das melhores páginas do livro, cresceram juntos, inclusive amaram-se, e perderam-se na história como fantasmas. Nada de substancial fizeram da vida, a não ser aproveitarem-se dos outros para sobreviverem. Uma espécie de prostituição diluída. Além do interesse das personagens, o valor do romance está na linguagem, no estilo do autor. Um bom primeiro romance. Leituras Paris 2014 3/5

Achados e Perdidos (Luiz Alfredo Garcia-Roza,1998)

Prostitutas, meninos de rua, um assassino temível, dois delegados da polícia, um reformado (Vieira), outro ativo (Espinosa), e Copacabana, da qual quase nunca saem as personagens, eis os principais participantes deste policial carioca, o segundo de Luiz Alfredo Garcia-Roza. Este escritor, nascido em 1936, foi professor universitário e autor de vários livros da sua especialidade (psicologia e filosofia). Quando se reformou, começou uma carreira literária com grande êxito. O primeiro livro, O Silêncio da Chuva (1996), recebeu logo o Prémio Jabuti e introduziu a série de livros policiais protagonizada pelo delegado Espinosa. Gostei muito do livro e agora não vou deixar o delegado Espinosa em paz. Viagem Paris/Póvoa 2014  (3,5/5)

Manual de Teatro (Antonino Solmer, 1999)

Descobri este livro de 1999 hoje, em Paris, nos saldos. Soube depois que foi reeditado neste mesmo ano, 2014. Ainda bem. É uma excelente introdução às variadas dimensões do teatro. Põe em ordem ideias que na minha cabeça estavam soltas e pouco precisas. Gosto especialmente da parte histórica. Além disso, tem muita informação sobre o teatro em Portugal. Já li uma boa parte dos capítulos que me interessam e pareceu-me de facto um bom e pioneiro trabalho. Leitura 2014

Noël Coward (1992)

 
Biografia de Clive Fisher (1992)
Noel Coward foi um talento multifacetado que marcou a cultura britânica na primeira metade do século XX. Começou como ator-criança nos tempos da primeira grande guerra e afirmou-se como dramaturgo na década seguinte, conquistando o West End londrino e a Broadway com peças espirituosas, algumas representadas até hoje. Na década de 40 marcou o cinema britânico em associação com o jovem David Lean, assinando obras como In Which We Serve e Brief Encounter. Depois da guerra reinventou-se como artista de cabaret, encarnando as canções que foi criando ao longo dos anos. O cancioneiro de Coward quase não é explorado nesta biografia. No entanto, ele é o único nome que conheço da canção britânica anterior aos Beatles e isso é qualquer coisa. Foi um homem que sempre quis ser famoso para fugir à classe média baixa de onde provinha e conseguiu-o logo desde a juventude. VC 02.2015: 4/5

Will Eisner (Michael Schumacher, 2010)

Will Eisner (2010) Autor: Michael Schumacher Bloomsbury 2010 Hardcover BIBLIOTECA F