La mauvaise vie (2005) é uma das melhores leituras que fiz nos últimos tempos. Não só a obra em si é muito boa, como me levou a questionar algumas ideias feitas sobre a literatura de hoje. Trata-se de um romance autobiográfico de Frédéric Mitterrand, sobrinho do célebre presidente francês. Realizador e programador de cinemas de arte e ensaio, Frédéric era Ministro da Cultura em 2009 quando rebentou a polémica tardia (o livro é de 2005) provocada pelo partido FN tendo como pretexto este seu livro.
Neste livro, Frédéric M., com a fantasia do romance a colmatar os buracos da memória e os atalhos inconfessáveis, olha para a sua vida sentimental e sexual de uma forma frontal, como poucas vezes se viu. Quando comecei a ler La mauvaise vie, fui surpreendido com a qualidade literária deste empreendimento. Depois fui surpreendido com o retrato que eu ia fazendo do protagonista-narrador (não importa até que ponto coincide com o verdadeiro Frédéric Mitterrand). Uma pessoa atormentada com os seus impulsos e com a pouca gratidão que a vida lhe tem retribuído. E no entanto, não há azedume nem má fé por quem passou (ou não passou da forma que ele esperava) pela sua vida. Pelo contrário, o livro é uma homenagem amorosa por todos os passageiros da sua barca, desde personalidades célebres (Catherine Deneuve e Marguerite Duras, entre as que pude identificar) e anónimas, que desapareceram sem deixar rasto. Neste último caso, estão duas amas da infância e adolescência, a ama boa e a ama má, que merecem de Frédéric algumas das melhoras passagens do livro. Ambas ele tenta encontrar muito mais tarde, décadas depois dos acontecimentos narrados.
Os franceses criaram um subgénero literário que podemos denominar de autoficção, em que o escritor parte de acontecimentos da sua própria vida para construir romances ou narrativas que se situam entre a autobiografia e o romance puro. Aproximando-se ora de um ora de outro pólo, esta literatura cria objetos muito diversos, por vezes sujeitos a acesas polémicas públicas como foi o caso deste livro de Frédéric Mitterand e como foi o caso de Christine Angot, um dos expoentes da autoficção. Para mim, o que conta é a língua ou a voz que cada escritor encontra e vai desenvolvendo de livro para livro. Li obras verdadeiramente admiráveis de Duras, Annie Ernaux, Angot, Catherine Millet e Nina Baraoui, que me fizeram perceber que o facto de se manterem bem perto dos acontecimentos da sua vida particular ou pública e os tomarem como referência central para seu projeto literário, não tem impedido os escritores de serem tão grandes quanto os escritores de literatura de imaginação mais pura. Os tais que mantêm acesa, com melhores ou piores resultados, a tradição romanesca do século XIX que privilegia os romances com histórias e personagens mais ou menos bem definidas. Infelizmente, a literatura portuguesa contemporânea cai, quase toda ela, nesta venerável tradição, americanizada hoje (russa e francesa em oitocentos) e a influência francesa está de tal modo apagada em Portugal que a corrente da autoficção é aí quase inexistente (será exagero?). O romance histórico, o romance de mistérios histórico-intelectuais, o romance mais ou menos realista, urbano ou rural, parecem dominar as livrarias portuguesas e também captar a atenção e o talento dos escritores portugueses. Nunca me passou pela cabeça formar o seguinte pensamento, que pode ser formulado assim: os escritores portugueses deviam pensar em contar a sua vidinha, que é aquela que conhecem melhor. Às vezes, vale a pena começar por arrumar a sua casa, antes de passar a construir o mundo dos outros. 4/5
