Li que Bérénice ficou mais de dois séculos na sombra, mas hoje é uma das peças mais populares de Racine. A sessão a que assisti estava cheia de adolescentes, que têm de estudar esta obra na escola. Esta tragédia baseia-se em acontecimentos da antiga Roma, nos amores de Titus e Bérénice. Titus, o novo imperador, rejeita Bérénice para não contrariar a opinião do povo de Roma. Os atores principais estiveram muito bem, mas a encenação não me agradou. Também o enredo não esteve a meu ver à altura de Britannicus, que foi a peça de Racine de que mais gostei até agora. Paris 03.2015 Théâtre du Nord Ouest 3,5/5
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PHÈDRE (1677)
Phèdre, mulher de Thesée, rei de Atenas, insiste na paixão (não correspondida) que sente pelo enteado Hipolythe e por isso desencadeia a tragédia familiar. Uma peça de sentimentos exacerbados, que a atriz principal leva ao histerismo. Como acontece no teatro de Racine, o melhor é a sua poesia. Paris 01.2015 Théâtre du Nord Ouest 3/5
ATHALIE (1691)
Athalie é a última peça (tragédia) de Racine. Muito elogiada por grandes escritores europeus de várias épocas, foi escrita para as pensionistas da instituição escolar Saint-Cyr. A produção a que assisti opta por um elenco inteiramente feminino. Gostei da encenação, mas achei o texto particularmente difícil, denso, que se presta mais à leitura ou pelo menos exige uma leitura prévia. Deve ser das peças mais exigentes de Racine (nunca foi popular como outras) mas é certamente uma das mais belas. Paris 05.2015 Théâtre du Nord-Ouest 4/5
Esther (Racine, 1689)
Para mim, Esther é uma das melhores e mais originais peças de Jean Racine. E a encenação de Marie Hasse apresentada pelo Théâtre du Nord-Ouest muito contribuiu para a minha apreciação. A tragédia imediatamente anterior de Racine é a famosa Phèdre, escrita 12 anos antes. Mas a tragédia Esther é bem diferente, é uma peça religiosa ou pelo menos em que a mensagem religiosa permeia a ação e os motivos das personagens. Esther é a mulher judia que salva o seu povo do massacre, convencendo o rei Assuérus de ter sido traido por um dos seus conselheiros, que pretendia acabar com os judeus. O melhor deste espetáculo, porém, é o coro de nove mulheres que comenta a ação. O lirismo da peça é sublimado pelas intervenções emocionantes do coro. Gostava de rever este espetáculo. Paris 06.2015 TNO 4,5/5
Les Plaideurs (Racine, 1668)
Racine apenas escreveu uma comédia, Les Plaideurs (1668), a sua segunda peça, e depois dedicou-se exclusivamente às tragédias. Compreende-se: ele é muito mais pertinente e intenso na tragédia. A dificuldade da linguagem e do tema (o mundo dos tribunais) é superada por uma encenação inventiva e musical de Jean-Claude Sachot. Paris 03.2016 TNO 2,5/5
BRITANNICUS (1669)
A OBRA (Jean Racine, 1669)
O ESPETÁCULO (CF, 2016)
Já conhecia Britannicus (1669) de uma produção do Théâtre du Nord-Ouest, obviamente uma casa menos prestigiada e com muito menos recursos do que a centenária Comédie-Française. No entanto, gostei mais do espetáculo do TNO do que do da CF, encenado pela estrela Stéphane Braunschweig e interpretado, entre outros famosos atores, por Dominique Blanc. A peça de Racine foi escrita em verso e é de uma dificuldade extrema para chegar hoje a um público alargado. Os atores lutam para que o texto lhes saia naturalmente mas o esforço nota-se. E ação e movimento é o que as peças de Racine não permitem facilmente. Acho que o teatro de Racine mostra o seu melhor através da leitura e da análise textual e perde algo na passagem à cena. A plateia da Comédie-Française aplaudiu imenso o espetáculo mas os muitos adolescentes que estavam na sala estavam simplesmente entediados. Paris 05.2016 CF 2/5
O ESPETÁCULO (TNO, 2015)
Há meses, integrado na integral Racine que o Théâtre du Nord-Ouest está a apresentar, assisti ao clássico Britannicus, tragédia sobre o ódio que Néron nutre pelo seu irmão Britannicus e que o leva a matá-lo. Foi a melhor peça que vi da integral, não só porque o texto é muito bom (compreende-se que seja leitura obrigatória na escola) mas sobretudo porque a interpretação e a encenação valorizavam a peça. Lembro-me de que havia uns pormenores que modernizavam a peça, como o recurso à música rock e a utilização das drogas que faziam sentido no contexto de decadência moral em que o protagonista (Nero) e os seus aliados viviam. Talvez esta encenação não tenha sido do agrado de todos, o facto é que o TNO resolveu estrear hoje uma nova produção de Britannicus, assinada por Jean-Luc Jeener. Foi mais uma noite inesquecível de teatro e confirmou a genialidade da peça de Racine. Não havia nenhum adereço na pequena cena da Salle Economidès, nem havia música. Os atores (todos bons, Néron e Burrhus brilhantes) vestiam apenas umas túnicas romanas. Quase tudo repousava na palavra. A peça é longa (três horas) e em verso, os atores esforçaram-se por ser inteligíveis, houve momentos em que não consegui acompanhar a torrente de palavras, mas houve outros em que ficamos todos hipnotizados, suspensos pela arte de Racine (e dos atores). Austeridade, ausência de espetacularização, intensidade dramática é o que nos dá esta encenação de Britannicus. Foi muito, muito bom. Paris 11.2015 TNO (5/5)
O ESPETÁCULO (TNO, 2015)
A história: Agrippine, viúva de Claudius, teve dois filhos de homens diferentes, Britannicus e Néron, que se enamoram pela mesma mulher, Junie. Néron, o imperador, mata o irmão, iniciando uma série de mortes entre os seus mais próximos. Depois de Iphigénie, Mithridate e Phèdre, vi agora Britannicus, a segunda grande peça de Racine. De longe foi a melhor produção entre as quatro propostas pelo Théâtre du Nord Ouest. Esta tragédia, tal como as restantes, é exigente ao nível do discurso, composta de versos alexandrinos. Mas os atores apropriam-se do texto com brio e encarnam as personagens romanas com um talento imenso. Excelente encenação de Florence Marschal. A introdução de elementos modernos (como a tablete lúdica que exprime a impaciência de Néron) tem um efeito expressivo surpreendente. Paris 02.2015 TNO 5/5
IPHIGÉNIE (Racine, 1674)
Iphigénie será sacrificada pelo pai para aplacar a ira dos deuses. Segue-se a reação dos mais íntimos da heroína, a mãe e o futuro esposo. Infelizmente, o tom da peça, nesta produção, resvala para o histérico. Esta é uma das peças menos interessantes que vi de Racine. A encenação de Rémi de Monvel e a direção de atores estão aquém do que costumo ver no Théâtre du Nord-Ouest. Paris 06.2017 NOTA: 2,5/5
Voltei hoje a frequentar um dos meus locais preferidos de Paris: o Théâtre du Nord Ouest. Deve ser único no mundo, pois propõe regularmente integrais de dramaturgos, mesmo que isso implique a encenação de dezenas de peças e a leitura de tantas outras. Há semanas começou a integral de Racine, de quem nada vi antes. Iphigénie é uma tragédia pouco encenada hoje, que retoma a trama de Eurípedes. Iphigénie, filha do rei de Micenas Agamemnon, vai ser sacrificada pelo pai para aplacar a ira dos deuses. Em Eurípedes o sacrifício consuma-se, em Racine não. Afinal a peça foi estreada perante a corte em Versailles, que não devia estar para suportar tamanho desenlace trágico. A peça conta com quase dois mil versos alexandrinos, mas os atores dirigidos por Jean-Luc Jeener tiveram o talento de tornar o texto mais inteligível do que muitas comédias francesas contemporâneas. O grande trunfo do espetáculo é a palavra de Racine. Durante três horas a minha atenção foi muito desigual, mas muitas vezes foi um encanto escutar a poesia de Racine. Paris 01.2015 TNO
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| Hall do Théâtre du Nord Ouest |
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