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| The Well of Loneliness (Radclyffe Hall, 1928) O Poço da Solidão Record, 1998 Tradução de Ary Quintella |
Foi um verdadeiro achado ter encontrado este livro numa banca de livros velhos, na Carioca, no Rio. Trata-se, suponho, da única tradução em língua portuguesa do clássico The Well of Loneliness (1928), primeiro livro importante sobre o lesbianismo. Quando foi publicado provocou sem surpresa uma grande polémica e chegou a ser proibida a sua publicação. O livro começou por surpreender-me pelo seu recorte clássico, quanto à estrutura e também quanto à linguagem, numa época em que Joyce e Woolf mostravam ao romance caminhos radicalmente modernos. Mas o romance de Hall é muito bom, tendo me proporcionado uma leitura muito prazerosa. O livro narra a vida de Stephen, uma jovem da aristocracia terratenente da província inglesa, que por amar mulheres e persistir na busca de uma relação lésbica estável e publicamente reconhecida, vai descer o poço da solidão, como sugere o título. Mas nessa descida Stephen encontra muitos respiradouros e entradas de luz e em alguma delas poderá descansar e viver. Há o trabalho (Stephen torna-se uma escritora famosas) e o amor (a longa relação com Mary, em Paris). Radclyffe Hall refere-se a Stephen como um ser invertido, um termo tolerável na época para referir os homossexuais, mas estranho na nossa época. Não importa. O que é notável é ter narrado uma vida, do nascimento até à idade adulta, marcada pela frustração decorrente da sua orientação sexual. Stephen não tem modelos em que se espelhar e acorda muito tarde para a sexualidade e para a sua sexualidade em particular. E leva tempo a perceber que o seu comportamento nunca será aceite no meio fechado em que cresceu e que amava: a sua propiedade de Morton. Terá de abandonar a casa e abdicar de qualquer relação de afetividade com a mãe. Vai viver para Londres, e por fim para Paris, onde conhecerá o período mais feliz da sua existência e o único onde se relaciona com outros como ela. Um excelente romance. Paris 2018 4,5/5

